terça-feira, 20 de novembro de 2012

Eu sou assim !


Eu sou assim!

Sempre proferimos esta frase em nossa defesa, quando precisamos de uma justificativa para algum tipo de posicionamento que possa merecer críticas: “Eu sou assim!” Sucedida por ponto de exclamação. Ou vários. Não simpatizo com essa afirmação categórica, mesmo sabendo que os condicionamentos têm um poder avassalador sobre nossa forma de pensar e quase todas as decisões que tomamos. Conformar-se com essa pseudoverdade é concluir que somos seres acabados, que não há mais nenhuma brecha por onde possa entrar o novo, algo de inédito para inaugurar outra fisionomia. Deve ser muito cansativo passar meses, quando não anos, repetindo isso como uma espécie de mantra, algo que nos redima do pecado de cristalizar os mesmos tipos de pensamentos dentro de nós.

Dizemos, também, como outro salvo-conduto para nossas ações, que o hábito é uma segunda pele. Sou mais radical: acho que o hábito é a própria pele. E como é difícil se desfazer dele, seja pela circunstância trágica da morte de um ser com quem partilhamos um cotidiano carregado de abençoadas repetições, seja pela lucidez que nasce depois de um longo processo de análise em busca de novos caminhos para seguir. O fato é que, por preguiça ou incapacidade de mudar, nos aferramos à ideia da imutabilidade de certas coisas. Esse conformismo nos impede de superar o que incomoda, o que raspa uma camada muito tênue dentro da gente. Mas que pode ser alcançável pela disposição e boa vontade.

O abandono, muitas vezes, é mais benéfico que o acolhimento. Não falo de pessoas, mas desse suposto autoconhecimento. Ele nos priva de desbravar o diferente, o que nunca participou do nosso rosário doméstico. Claro que perdas são difíceis de absorver e mudanças de assimilar. Ninguém gosta de se sentir órfão. Queremos o conforto macio das situações já conhecidas, a segurança tépida das estações sem temporal. Olhando em retrospecto para o que vivi, descubro mais escombros do que construções a serem inauguradas. E me sinto feliz que assim seja. Se há algo que se possa chamar de crescimento, sua origem está na ousadia em derrubar, assimilando pedaços de horizontes que a vista não alcançava. Tenho dores que não posso dividir com ninguém. Enfrentei meus medos até descobrir que não existe nada além do medo, sempre tão frágil e movediço quando o encaramos nos olhos. Fugir é nossa primeira tentação, deixando que o animal manso se transforme num monstro com mil tentáculos. Abrir o quarto e enfrentar a solidão de uma cama que já não é mais habitada por quem amamos pode ser o melhor antídoto para escapar da tentação do acomodamento, quando não da desistência.

As impressionantes modificações que se operam em nós ao longo da vida acabam deixando um gosto de manhã que nasce, de discreta surpresa por estarmos vivos. Porém, é preciso ter cuidado: muito do que sentimos tem um sabor póstumo. Um sabor inútil. Distinguir aquilo que importa do que é superficial, mera convenção, é salvador. Que prazer conseguir descartar, dizer não, acolher o que nos deixa tranquilos, longe das obrigações e dos compromissos. Minha meta é atravessar o ano com a agenda cada vez mais vazia. Registro apenas na minha mente o que preciso fazer num futuro breve, bem breve. Aliás, nada tem me agradado mais do que essa despreocupação longamente ansiada por esgotar meu único pertencimento: o agora. Corro o risco de parecer óbvio. Que seja. Passei a desconfiar das grandes especulações metafísicas, dos projetos mirabolantes que acabam quase sempre esbarrando em algum interdito. Aprendi a me reconhecer somente dentro do momento. Encurto minha ansiedade toda vez que consigo dormir sem pensar em nada além do mergulho em um sono reparador.

Talvez amanhã eu seja outro, bem diverso do que sou hoje. Bendigo a maleabilidade da minha alma, tão duramente conquistada. Como disse Nietzsche, quem ama os abismos precisa criar asas. Fico encantado diante de toda nova possibilidade de ser, mas não me deixo seduzir por nenhuma utopia. Gosto da palavra movimento. Gosto da palavra lentidão. Juntas elas se transformam nessas asas que me afastam da comodidade de ser sempre eu mesmo. Daqui a pouco partirei. Não sem antes reconhecer que não preciso estar preso a nada. Preciso, sim, da contradição para me salvar. Eu não sou assim!

terça-feira, 30 de outubro de 2012

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

A moda incomoda



Perdoem-me os moderninhos de plantão, mas poucas coisas são mais “estranhas” do que a moda. Mais por força de circunstâncias profissionais do que por desejo pessoal, circulo em lugares considerados propícios à proliferação dos que a seguem. Onde todos têm a obrigação de parecer diferentes, embora absolutamente padronizados dentro do seu gueto. Trapinhos, sim, trapinhos viram bolsas de grife de estratosférico valor. Cabelos que clamam por uma guilhotina causam suspiros entre seus pares. Botas que se adequariam perfeitamente às lides rurais são exibidas como verdadeiras obras de arte. E o preto! Valei-me, o preto é o Manto Sagrado contemporâneo que todos reverenciam. Uma espécie de cortejo fúnebre esfuziante ocupa os melhores ambientes. Ah, e muito importante: nessas reuniões, precisa-se mostrar certo ar de tédio. Um bocejo discreto sempre é recomendável.

Confesso que me sinto um alienígena quando estou entre essas criaturas pós, ultra, mega-antenadas. O que esperam de você? Sorrisos e elogios a granel. Diga que estão deslumbrantes e seu nome merecerá ser incluído em sua exclusivíssima agenda. Fale qualquer coisa do tipo “que incrível, onde você comprou isso?” e algo parecido com uma iluminação religiosa poderá ser detectada em suas faces. Mas, atenção, você corre o risco de receber um curso intensivo, em dez lições, de como se vestir bem, de como não fazer feio em meio a tanta gente fashion. Você, coitadinho, que ainda se veste como uma pessoa comum, normal, previsível. Que se recusa a pagar mil reais por uma calça. Ou quinhentos por um acessório. Que prefere ficar olhando esse desfile incessante de esquisitices em vez de fazer parte do espetáculo. Olha aí outra palavra adorada por toda a turma: espetáculo. O palco tem de ser deles, de preferência com luzes piscando incessantemente sobre suas cabeças.

Não sei bem por que, mas tenho sentido algo parecido com constrangimento quando testemunho esses simulacros e afetações que muitas festinhas estimulam. É tudo tão artificial, tudo sem pudor algum. Os gestos exagerados, as vozes que gritam, ultrapassando o ambiente, até alcançar a rua. Comecei falando em moda e agora percebo que o que mais me incomoda é o jeito com que muitos se expõem nesses grupos considerados de vanguarda. Aliás, ainda posso usar esse vocábulo? Tudo acontece tão rápido que o novo já nasce velho. Todos citam muito o estilo, mas é o que menos tenho visto. Elegância é privilégio de poucos. Não pode ser comprada em lojas, já o sabemos. Tenho algumas amigas que poderiam subir em qualquer passarela com garantia de sucesso. Mas raramente são vistas farfalhando por aí. Resisto em usar a palavra fauna, mas é nela que penso toda vez que desenho mentalmente alguns locais onde os que ditam a moda fazem seus rasantes. Se eu conseguisse ser um pouco menos crítico certamente me divertiria mais. Preciso treinar o papel do alienado feliz. Só acho difícil ceder a essas tentações que desfalcam consideravelmente a nossa conta bancária.

Pergunta: será que se permitem repetir algum look? A autocensura não deve ver com bons olhos esse pecado estético. Todos precisam se sentir exclusivos, sob pena de terem seus nomes riscados da próxima lista vip. Certo, certo, sei que o mundo ainda não virou uma Daslu com ares de Dallas, embora muitas vezes pareça. Mas não estamos muito longe disso, penso. Por ora são nichos, só isso. O futuro nos dirá. Cuidar de si, praticar moderadamente a vaidade é outra coisa, senhores.

Para que todos não entremos nessa espécie de obsessão, uma rápida olhada no espelho antes de sair de casa pode ser de grande valia. Não deixe que ninguém determine o que deve ser usado ou descartado. É possível até seguir as tendências da estação, mas sem perder de vista que não vale para todos e todas, indiscriminadamente. Porque senão vira ditadura. Desde que aprendemos a nos enfeitar para seduzir, a moda ganhou um status quase divino. Mas não esqueça esse mandamento básico: ela evapora rapidamente. O ridículo, nem sempre.

terça-feira, 16 de outubro de 2012

Arquivos mentais


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  • Depois de uma série de pequenos e turbulentos desastres domésticos, meu amigo desabafa: “Só pode ser olho grande, inveja, sei lá. Só isso para explicar tanta coisa ruim acontecendo na minha vida.” Fazemos uma rápida retrospectiva e descobrimos que esses incidentes estão muito mais relacionados a uma sucessão de descuidos, ao acaso, do que a algo maléfico planejado por terceiros. O mundo não conspira contra nós, acredite. Fiquei com a impressão de não tê-lo convencido totalmente, embora suas convicções talvez tenham sido sutilmente arranhadas. No caminho para casa, pensei no quanto esse tipo de crença é recorrente. Poucos escapam dessa armadilha. Não sou um dos felizardos, embora em diversas circunstâncias eu consiga trocar o embotamento por algumas doses de consciência. Mas nem sempre. Quando algo dá errado, é mais fácil culpar o vizinho, o suposto inimigo, o desafeto. Assim nos isentamos da responsabilidade. E há todo um entorno social que endossa essa postura. Aliás, há um mercado bastante lucrativo que estimula esse tipo de pensamento.

    Algo anda mal com você? Recorra a um pai de santo, a uma cartomante, faça uma macumba. Reze. Pague para sair dessa, se preciso for. Nada contra. Pode ser um recurso legítimo, mas o efeito se parece mais com o de um placebo. O que a gente não costuma fazer é acessar o nosso arquivo mental e tentar descobrir onde está a falha, a desconexão. Porque é certo que quando tudo parece desandar as causas estão bem mais próximas do que imaginamos. Mas é difícil fazer esse mapeamento e assumir culpas. Mais: admitir certos boicotes, que costumam resultar da fragilidade típica de quem se habituou a se sentir vítima de tudo e de todos. As palavras redentoras são essas: os outros. Com isso não preciso fazer nada além de lamentar o meu infortúnio, pobre ser chicoteado pelo destino. E não importa o tamanho da injustiça que sofremos. Na contabilidade final, permanece a certeza de que não merecíamos passar por isso.

    Talvez a porta de entrada para o mundo adulto se encontre exatamente aí: na percepção de que somos os artífices da maioria das coisas que acontecem conosco. É difícil traduzir isso através da linguagem. Pode ser que a expressão correta seja simplesmente essa: assumir nossos atos. Mesmo quando os efeitos são desastrosos e os fatores que os provocaram pareçam desconhecidos. Ao ampliar as investigações, descobrimos que bem e mal são conceitos que não transcendem o nosso próprio eu. E é dentro do movimento sutil de cada dia que vamos encontrar respostas. Ou, pelo menos, uma tranquilidade que exonere as culpas. E a pior delas é a terceirizada. Os pilares de muitas religiões são colocados exatamente nesse terreno. E quem sou eu para negar o conforto que conseguem dar a tantos órfãos de um sentido para a existência.

    Permanecer de olhos abertos não é fácil. Mas se fechar em dogmas equivale a colocar um par de algemas em si mesmo. Até somos capazes de continuar caminhando, mas uma boa parte da nossa liberdade foi perdida. Eu continuo me deseducando. E nesse processo está a vontade de recuperar alguns campos que não estão definitivamente contaminados pela lógica e pelos precários cinco sentidos. Existe algo lá fora, afinal? Não sei, mas me agrada a ideia de conseguir suportar esse hiato de solidão, ancorado na coragem e no desafio. Continuo caminhando no deserto, mas com a convicção de que uma terra prometida poderá ser avistada algum dia.

    Voltando ao amigo perseguido por forças ocultas, posso dizer que hoje, passados alguns meses, uma camada muito tênue de comprometimento já se torna perceptível nele. Disse-me que chama isso de efeito bumerangue. De alguma maneira, as coisas voltam. Há uma circularidade impressionante em tudo. E para descobrir isso, não recorreu a nenhum expediente de ordem espiritual. Ele simplesmente está aprendendo a difícil arte da autoanálise. Nem sempre é muito bonito o que encontramos nessas escavações. Mas é a única maneira de parar de gritar contra Deus e o mundo sobre aquilo que nos acontece. Virtude e recompensa nem sempre andam juntas. Superstição e fracasso, sim.

quarta-feira, 10 de outubro de 2012


Ponto de impacto fulminante de um recomeço

Se quer finjir que esse desprezo é verdade,
da pra notar,seu sorriso esconde lágrimas de saudade
Se fosse mesmo somente uma mentira
aceite os fatos,o que eu coloquei em você,nada tira

Com a clareza das mudanças,tudo pode acontecer
e o anjo que eu cultivei fez um demônio nascer,
o medo anda lado a lado com a insegurança,
e a cada passo assustado,cai no esquecimento a lembrança

Mas guerreiros foram feitos pra suportar a dor,
apenas com a motivação de que nada supera o amor.
Tudo que é perfeito não passa de ilusão,
e se amar for um defeito,não existe perfeição.

Toda ação tem sua consequência num momento
e o mal que passou hoje,vem de volta com o vento
só olhos de dor conseguem ver o mal,
e o erro da incompreenção é sempre fatal.
Não existe mal tão grande que não va acabar,
nem bem tão intacto que sempre va durar.

A vida tem o costume de tentar nos derrubar,
e poucos tem o dom de cair,levantar e recomeçar...
quantas vezes forem necessárias até o sonho esperado alcançar.
Sidney Lobo Jr

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Não se sacrifique



Enquanto estamos envolvidos amorosamente com alguém, acreditamos que qualquer sacrifício vale a pena. Que só o fato de merecer atenção e afeto justificam o desvelo, a total abnegação. É assim entre apaixonados, entre pais e filhos. E o mesmo se pode dizer daqueles amigos que têm uma alma parecida com a nossa. Mas o tempo passa e tudo arrefece. O que antes foi motivo de exultação e felicidade pode se transformar em indiferença ou, em casos mais extremos, em ódio – vide o que ocorre em algumas separações conjugais. Talvez seja a causa de eu nunca ter invejado amores viscerais, esses que nos deslocam de nossa órbita existencial. Primeiro: é uma situação em que precisamos fazer uma escolha, uma única escolha, em detrimento de tantas outras que se apresentam a nossa frente. Segundo: é sempre perigoso colocar muitas expectativas em alguém. A intimidade acaba gerando, inevitavelmente, algumas decepções. E a consequência imediata é a de uma cobrança descomunal: “Eu, que fiz tudo por você, só recebo em troca ingratidão.” Parece letra de bolero, mas muitas vezes ela é dita com insistência assustadora.

Por isso me encantam mais os sentimentos discretos, amenos, esses que não precisam ser gritados nas esquinas para todo mundo ouvir. Amor bom vai se espalhando mansamente, sem a pretensão de virar roteiro de filme, no gênero drama. Passar a vida abdicando do que é importante para nós, oferecendo incondicionalmente dedicação e zelo, não costuma trazer bons resultados a longo prazo. Em algum momento, que pode ser daqui a seis meses ou vinte anos, pouco importa, sacaremos do bolso a conta e cobraremos com juros e correção monetária. Atire a primeira pedra quem nunca agiu assim. Tudo que sentimos vai oscilando, mudando de intensidade. Raros conseguem doar-se sem o desejo da reciprocidade. Não resta dúvida que alguns seres mais elevados sabem praticar a abnegação irrestrita. Fazem isso e, assim que percebem que sua presença não é mais desejada, assinam a carta de alforria. De ambos. Aprenderam a sair de cena sem apresentar a fatura do seu amor. Mas é preciso muito treino para se chegar a esse estado de evolução.

Somos criaturas que acumulam não somente objetos materiais, mas também o invisível que se esconde nas dobras do nosso pensamento. É difícil saber o quanto de entrega deve acontecer para não contaminar, futuramente, o que hoje nos parece um encontro movido pelo desinteresse. É um campo em que a ânsia de permanência encontra pesadas barreiras, a começar pela rotina e pela necessidade de preenchermos as horas com atividades que nos garantam a sobrevivência. Talvez seja melhor buscar o equilíbrio, traduzido em pequenas doses diárias de afeto, nada muito avassalador. Não perceber os componentes mesquinhos e interesseiros que também fazem parte dos contatos entre os seres humanos é puro auto-engano. Aceitável somente em alguns momentos de fragilidade emocional.

Se a nossa vontade é de dilatar através dos anos a ligação que temos com parentes, amigos e amores, é bom ir aprendendo desde já a praticar a parcimônia. Evitaremos muitas brigas e, o melhor de tudo, não avaliaremos em gramas o que estamos doando. É só olhar ao redor para descobrir como isso atrasa o nosso crescimento. Ficamos parecendo essas crianças que, diante de um parque repleto de brinquedos novos, se recusa a largar o seu, por mais puído que esteja.

Resista à tentação de se tornar um mártir. É puro masoquismo, ninguém vai valorizar isso, muito menos o seu terapeuta. Já dei muita escorregadela por aí, mas felizmente as escoriações foram superficiais. Hoje sou gato escaldado e penso duas vezes antes de proferir essa frase: “Eu faria qualquer coisa por você.” Não faça. Estabeleça um limite e sele o pacto consigo mesmo. Isso é gostar. Precisamos ter cuidado e não pesar uma tonelada para os outros. A palavra mágica continua sendo essa: leveza.

sábado, 18 de agosto de 2012

Conforme o entendimento



Se eu olhar para o meu passado na tentativa de descobrir porque agi dessa ou daquela maneira em determinado momento, é provável que as razões me escapem. Estamos fadados a não compreender nossas motivações quando esquecemos o que as gerou. E aí surge a inevitável pergunta: por que será que fiz essa escolha e não outra? Pequenos martírios começam a invadir nossa mente, sempre inúteis, pois o que somos hoje se sobrepõe, e muitas vezes apaga, o que queríamos e pensávamos outrora. É por isso que essas revisões analíticas às vezes fracassam. Sob a luz da psicanálise, tais incursões podem nos ajudar a desvendar comportamentos atuais, mapeando algumas áreas sombrias do nosso ser. Para uns funciona; para outros acaba somente gerando mais culpa.

Talvez a beleza da existência resida exatamente nisso: na descoberta de que estamos à deriva. Não há bússola condutora e é destino de todos seguir tateando aleatoriamente em busca de uma porta, de uma saída. Investigações interiores podem ganhar significação na medida em que aceitamos o equívoco como um elemento fundamental do enredo que continuamos escrevendo. Para o budismo, a consciência é fruto direto do grau de entendimento que temos da realidade que nos cerca. Dou-me como exemplo: quando criança, fazia pequenas armadilhas com galhos cobertos por visgo que retirava de uma árvore. Assim que um pássaro pousasse nele ficava preso até que eu fosse lá e o “libertasse”, rumo a uma gaiola. Menino criado no interior, agia mais por impulso e repetindo o que via no mundo adulto do que por um desejo pessoal de me apropriar dessas pequenas criaturas que eu acabava privando do céu. Havia maldade premeditada nisso? Provavelmente não. E assim também é quando, movidos por algum tipo de ignorância, acabamos involuntariamente causando sofrimento.

Viver é acumular experiências, mas é também aprender a selecionar. Hoje sei com mais clareza o que provoca dano e o que é inofensivo. Espero saber um pouco mais amanhã. Se eu escolher o caminho da agressão, da violência calculada, aí sim serei plenamente responsável. Mas tento aceitar o equívoco e me perdoar sempre que não houve dolo, não houve intenção de ferir. A clareza é resultado direto do cuidado que temos em preservar e respeitar o que sente e respira. E, numa perspectiva mais poética, podemos acreditar que nem as pedras são privadas de um certo tipo de “sensibilidade”. Esse é um dos grandes pecados dos dias atuais: achar que o mundo está a nosso serviço, quando é exatamente o contrário. Na semana passada, andando pelas ruas centrais da cidade, surpreendi-me olhando para os passantes com interesse filosófico, por assim dizer. Sentia-me bastante melancólico e, envolto em mim mesmo, doía-me a indiferença do mundo. Porém, na medida em que fui me fixando nos rostos alheios, percebendo que alguns também demonstravam igual estado, dei-me conta da insignificância deste autocentramento. Por outro lado, essa percepção teve um caráter quase religioso, pois me colocou em conexão com pessoas que até então nada significavam para mim.

Uma simples mudança de perspectiva pode aniquilar a dor, fazendo-nos compreender o quanto somos levados a atribuir importância a coisas e situações que não a têm. A verdade é que a gente sempre faz o que pode. Do jeito que pode, na hora que pode. Mesmo nos munindo de toda a disposição, não conseguimos ir além do que conhecemos e acreditamos no momento. Não é de se estranhar que os grandes mestres repitam: “Atenção, atenção, atenção!” O equívoco é sempre fruto da distração, da nossa tendência em ficar olhando para o lado, quando o mais importante acontece diante e dentro de nós. Não sei se a morte é um fim, um começo ou um meio. Mesmo que tudo se esgote aqui, precisamos escolher com o máximo de lucidez. E agir. Os santos e os assassinos em algum momento se igualam: ambos fazem o que é possível com o que extraíram da vida. O horror e a beleza acabam se misturando nessa misteriosa viagem que começa e termina tão rapidamente. Vale lembrar uma exortação que se encontra na Bíblia: “O que te vier à mão para fazer, faze-o conforme tuas forças, pois na sepultura não há obra nem sabedoria alguma.”

Não desprezemos o erro: ele é o degrau mais seguro para ver um pouco acima, um pouco além, através de tudo.