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Uma única vez
O que poderia ter sido e não foi é a causa de quase todos os nossos tormentos
Sempre estranhei o fato de as pessoas dizerem que quem costuma ler muito está fugindo da vida. Acredito que seja exatamente o contrário: é quando lemos que encontramos o centro de nossa existência, deixando de lado muitas distrações que convencionamos chamar de fatos importantes. Um bom livro nos envolve de tal maneira que podemos dispensar quase tudo. Absorto numa história instigante ou numa reflexão mais densa, esqueço do mundo. A única paisagem que vejo é a que encontro ao folhear as páginas em busca de novos amigos, personagens que me acompanharão pelo resto dos meus dias.
Vez que outra isso se torna tão intenso que é quase impossível não dividi-lo com os outros. Vou fazer isso agora. Terminei de ler o magnífico romance O Mundo Pós-aniversário, da americana Lionel Schriver, escritora que já havia me impressionado muito com o perturbador Precisamos Falar Sobre o Kevin. Se me fizessem a clássica e batida pergunta sobre quais livros eu levaria para uma ilha deserta, tenho certeza de que os dois estariam na lista. Fato é que não se pode passar incólume pelo texto dessa grande analista do comportamento humano.
Depois de quatro dias de leitura quase ininterrupta, muitas percepções que eu tinha sofreram uma mudança radical. É isso: um bom livro muda a vida da gente. Aqui temos a história de Irina, ilustradora de livros infantis que, num determinado momento, se sente impelida a beijar um amigo de seu marido. Só que esse gesto quase banal pode ter repercussões imprevisíveis. E é essa questão que a autora trabalha com maestria inigualável. Um ato aparentemente insignificante alterando o rumo inteiro de nossa existência.
O problema é que nunca vamos saber disso, porque nada se bifurca, não podemos viver duas vidas paralelas. Tudo acontece uma única vez. Só existe o concreto, o que celebramos meio distraidamente nas dobras do dia. Mas como gostaríamos de espiar o caminho que não foi escolhido!
O que poderia ter sido – causa de tantas angústias que nos torturam anos a fio, em pensamentos reiterados sobre a não escolha. Lionel mostra esse desdobramento. Para concluir que não existe o melhor, não existe o mais correto. Cada um faz o que pode, o que sua estrutura emocional permite quando as coisas acontecem. Se toda decisão implica numa renúncia, também é verdade que sempre elegemos o que nos parece mais plausível à luz da consciência do momento.
Uma pequena vitória agora pode se revelar uma derrota avassaladora mais adiante. Uma perda também pode ser sinônimo de libertação. Não temos como prever os significados que só o tempo trará. Cabe-nos a aceitação. E a coragem de celebrar uma rotina que pode ser sagrada, pois é dentro dela que desenhamos o nosso mundo.
Tendemos a ser pequenos, previsíveis, resvalando quase sempre para o ordinário. A grandeza talvez se esconda exatamente aí, na capacidade de transformar o banal em algo grandioso. Em aprender a viver o que é nosso.
“Pode-se passar um tempo terrivelmente longo esperando a chegada daquilo que se teve desde sempre, como quem tamborila os dedos à espera de uma entrega, enquanto o embrulho aguarda pacientemente fechado do lado de fora da porta.”
domingo, 31 de janeiro de 2010
Uma única vez
quarta-feira, 13 de janeiro de 2010
A lei de cada um
MARTHA MEDEIROS
A lei de cada um
Wesley Ramos é um menino de 11 anos que mora nos arredores de Sorocaba, SP, e que foi homenageado semana passada pela prefeitura da sua cidade por ter devolvido uma bolsa à dona e tudo o que nela havia, documentos e dinheiro inclusive. Foram concedidas honrarias públicas para o menino honesto.
A cada vez que isso é destacado no jornal, me sinto uma extraterrestre. Viver num país onde os atos que deveriam ser corriqueiros viram manchete é um sintoma da nossa deterioração moral. No jornalismo, existe uma máxima que diz que notícia não é um cachorro morder uma pessoa, e sim uma pessoa morder um cachorro. Wesley, que devolveu o que não era seu, mordeu um cachorro.
O comum tornou-se incomum porque nos habituamos a tomar atitudes desconectadas da ordem social. Na hora de bravatear, somos todos imaculados, os reis do gogó, que salivam de prazer ao apontar as falhas dos outros, mas, na hora de seguir a lei dos homens, refutamos a coletividade e tratamos de seguir nossa própria lei. E a lei de cada um é a lei de ninguém.
A estrada, o lugar mais superpovoado do verão, oferece um demonstrativo desse “cada um por si” que leva a catástrofes. A faixa amarela contínua serve para os outros, não para o super-herói do volante que enxerga mais longe e melhor do que os engenheiros de trânsito. Quantas doses de álcool se pode beber antes de dirigir? Para a lei geral estabelecida, nenhuma. Para a lei de cada um, o limite é decisão pessoal.
Choramos pelos mortos que ficam soterrados nas encostas por causa da chuva, mas dai-nos um terreninho em cima do morro e com vista pro mar, Senhor, e daremos um jeito de conseguir um alvará irregular.
A corrupção é generalizada. Na hora de espinafrar os Arrudas que surgem na tevê, somos todos anjos, mas quando surge uma oportunidade de facilitar o nosso lado, de encurtar caminhos, mesmo agindo incorretamente, não existe lei, não existe ética, existe apenas uma oportunidade que não se pode desperdiçar, coisa pequena, que mal há?
Honestidade e ética dependem unicamente do ponto de vista do cidadão: quando ele enxerga o outro fazendo mal, condena. Quando é ele que age mal, o mal deixa de existir, é apenas uma contingência. Essa miopia se corrige como?
Ninguém está imune a erros, mas seria um alívio se nossos erros se mantivessem na esfera particular. Quando agimos como cidadãos responsáveis pelo bem público, o erro de caso pensado deveria ser um crime. Aliás, é crime. Mas somos hipócritas demais e há muito que invertemos os princípios básicos da cidadania. Wesley foi homenageado por não ser mais um a inventar a sua própria lei, e sim por ainda acreditar na lei de todos.
domingo, 13 de dezembro de 2009
35 E MEIO
35 E MEIO
Tenho uma amiga que passa por dificuldades homéricas toda vez que vai comprar um sapato. Ela calça 35 e meio. É quase impossível sentir-se confortável usando 35 ou 36. Ou fica muito folgado ou aperta demais. Resultado: ela vai se adaptando como pode a essa peculiaridade anatômica. Deixa de lado a vaidade em troca do necessário conforto para conseguir andar sem formar bolhas nos pés ou tropeçar nas próprias pernas.Você não acha que algumas pessoas passam a vida calçando 35 e meio? São tão rígidas com elas mesmas e com os outros que não admitem a possibilidade de fazer pequenos ajustes para conviver melhor com seus semelhantes. A severidade é tanta que nem sonham em elaborar um outro roteiro para suas relações. Difícil conviver com elas! Quase nunca cedem e acabam fazendo com que nós também nos restrinjamos a essa perspectiva de ver tudo sob a ótica de meros centímetros. Ou milímetros, às vezes. Obviamente perdem o melhor da festa, porque quem não se permite relaxar acaba vivendo dentro de uma camisa de força emocional.
Raramente essas criaturas improvisam algo. A ousadia não faz parte de seus planos. Repetição é a palavra mágica, porque com essa forma de agir conseguem acreditar na maior de suas fantasias: a de que controlam tudo. É no inusitado que mora o perigo, acreditam. Para que arriscar algo, se está bom assim, tudo morno, previsível, confortável? Não importa se há ou não testemunhas para seus atos. A cobrança maior é em relação a elas mesmas. Devem sofrer horrores, sempre se penitenciando por uma palavra dita num contexto errado, por cinco minutos que chegaram atrasadas a um encontro, por aquele doce que não deveriam ter comido.
Sinto medo de me aproximar de quem professa a religião da inflexibilidade. Dos que não se permitem amanhecer numa cama desconhecida, experimentar novos sabores, apanhar chuva depois do trabalho, dizer bobagens. Acaba-se perdendo um dos mais preciosos bens, que é a capacidade de aceitar o diferente, a liberdade de mudar de opinião, deixando que tudo se transforme em algo cinza, sem surpresas. Mas seguro, sempre seguro. É só por esse caminho que sabem andar.
Como costumam ser bem ajustadas aos padrões que convencionamos chamar de normais, parece que sempre está tudo bem com elas. Mas não tenho dúvidas de que se torturam dia e noite, de que não aceitam nunca a ideia da falibilidade. Ou eles fazem e têm o melhor, ou nada. Só que tudo o que vibra, vive e pulsa acontece no campo da desordem, da especulação e da possibilidade. Quem não arrisca está condenado à perfeição e não há nada mais cansativo do que ela. Vale lembrar que só na morte não há mais risco nem erro.
Cobrar menos de si mesmo e dos outros, sabendo ajustar-se às circunstâncias – eis aí um bom modo de se levar a vida. Quando, por exemplo, você for pendurar um quadro na parede, erre acidentalmente o ponto marcado. E não o cubra com massa corrida ou tinta. Deixe-o lá como um aviso para lhe mostrar que é importante se divertir com sua própria falta de habilidade para algumas coisas. É disso que nasce o relaxamento e a tentativa feliz de usar sapatos de outra numeração, além do 35 e meio.
Saber adaptar-se, eis o segredo.
domingo, 22 de novembro de 2009
DIGA-ME COM QUEM ANDAS
Pessoas melancólicas que se aproximam acabam reforçando essa visão da realidade. Que poderia ser só uma referência, algo cambiante e que acaba mudando ao sabor das circunstâncias. A cada dia somos apresentados a desafios que exigem de nós não apenas coragem, mas sobretudo um olhar claro sobre as decisões que precisamos tomar. A resposta será fortemente influenciada por aqueles que atravessaram o nosso caminho. Sempre. O que somos resulta do que sentimos. É uma prisão, mas pode ser provisória e depende bastante de atenuarmos o que fica comprometido pela presença do outro.
Pessoas felizes, igualmente, procuram reforçar o modo como fazem sua leitura da existência. É o velho jogo de espelhos, só que muitas vezes acabamos confundindo o real com a imagem refletida. E, um belo dia, quase sem perceber, estamos agindo exatamente igual ao vizinho ranzinza que só vê o lado negativo de tudo ou, ao contrário, ao colega que parece ter acoplado nele um pequeno motor que gera alegria. Como a maioria de nós oscila ora para um lado, ora para outro, não custa nada prestar mais atenção àqueles que, em última instância, também são responsáveis por aquilo em que nos transformamos.
Como não nos é dada a possibilidade de viver mais do que uma vida, fica difícil saber o que poderíamos ter sido. “Eu sou assim, fazer o quê?”, dizemos para nós mesmos, e essa sentença determinista acaba encerrando um orgulho de vencedor. Mas o fato é que muitas coisas podem ser alteradas. Seja aos cinco ou aos 80 anos. E isso costuma acontecer à revelia de nossa vontade e mesmo do nosso lado racional. O molde começa a ser trabalhado cedo. Erramos ao só olhar para ele depois que já está seco.
Não tenho dúvida: eu seria outro, completamente outro, se não tivesse sido influenciado pela maneira de ver e sentir de todos com os quais convivo. Eles são responsáveis pela minha história pessoal. Mais do que isso: minhas noções éticas, morais, afetivas e mesmo religiosas provêm desse entrelaçamento de ideias que ocorre o tempo todo. Eu não sou, eu resulto. Em outras palavras, o velho ditado “diga-me com quem andas e eu te direi quem és” não é apenas uma simplificação. Ele traduz uma verdade inexorável: acabamos nos parecendo sempre com aqueles que estão próximos de nós. Como Zelig, o famoso personagem criado por Woody Allen, adquirimos muitas características alheias e formamos uma bricolagem que define nossa identidade.
A pluralidade de relacionamentos nos enriquece e possibilita uma perspectiva mais ampla sobre tudo o que praticamos. É bom evitar a armadilha de só procurar os iguais.
Criamos dependência, precisamos dos outros. A nossa responsabilidade é apenas parcial quando nos entregamos às derrotas ou reagimos positivamente às alegrias. Todos respondem pelo que somos ou deixamos de ser. Ninguém passa impunemente por esse contágio emocional.
sábado, 14 de novembro de 2009
CADÊ O MISTÉRIO?
Estamos vivendo em plena luz do dia, com o sol ardendo em nossos olhos. Eu prefiro manter alguns pontos obscuros, áreas ignoradas, uma curiosidade intocada. Preservar um sentimento, um objeto, uma relação, pode ser uma garantia de que não estamos interessados em invadir, em desarrumar as prateleiras em busca de revelações contundentes, abissais.
Uma frase que costumamos ouvir: “ele não me engana mais, eu o conheço como a palma da minha mão”. Divertido, não? Como se a alguém fosse dado o poder e a capacidade de desvendar quem é o outro. É melhor ser um Lego desmontável ou uma caixa de Pandora, que ninguém sabe o que sairá de dentro? Eu me distraio mais acionando a imaginação do que tendo na mão uma chave que abre todos os compartimentos. Até porque, quem de nós não guarda algum segredo, alguma inofensiva tara, dessas que não prejudicam ninguém? Deixar as portas escancaradas é tornar-se vulnerável, é dar de presente o nosso código ultra-secreto.
Traduzir sim, mas bem mais para si mesmo do que para os outros, que trabalho não há de nos faltar. Que a lanterna incida sobre nós, como um farol que perscruta um oceano sem fim. Como poderemos saber as razões que movem o comportamento alheio? Melhor mesmo é contentar-se com algumas suposições, não com o bater definitivo do martelo.
É difícil colocar um freio na nossa curiosidade. O enredo que ainda não conhecemos sempre nos parece mais original. Não nos damos conta de que, muitas vezes, suspeitar de algo é mais sedutor do que ter certezas. Porque assim deixamos que os devaneios cumpram o seu papel – o de alargar o estreito campo onde se desenvolvem as percepções mais corriqueiras. Que geram a ordem, ninguém duvida, mas que também são responsáveis pela apatia que se instaura em tantos relacionamentos.
“Toda lucidez pede penumbra”, disse o escritor e crítico Daniel Piza. Ter a capacidade de ver muito ou de ver tudo pode se transformar numa espécie de neurose, de compulsão. Prefiro continuar me aproximando devagar, tocando somente com a ponta dos dedos. É mais ou menos isso que as crianças costumam fazer: ficam paradas, observando, antes de dar o primeiro passo.
Enquanto escrevo, a claridade dessa tarde de primavera cede lugar para a noite que se aproxima solertemente. Não quero acender todas as luzes. Habito essa desejada escuridão, depondo as armas. A pressa, o frenesi, ainda latejam depois de tantos compromissos. Descanso na sombra, como um náufrago que encontrou uma boia em alto mar.

