sábado, 7 de novembro de 2009

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SÍNDROME DA ACESSIBILIDADE

SÍNDROME DA ACESSIBILIDADE

Tenho me esforçado para aceitar com mais tolerância as inovações que o mercado despeja na nossa cara a cada dia. Mas não é fácil. O que era novidade ontem é visto hoje como item de museu. Luta inglória essa, a de ficar resmungando contra o novo, mesmo que em voz baixa. Penso nas inúmeras dificuldades que a vida cotidiana deveria apresentar há 100, 200 anos e me conformo. Vou seguindo o ritmo das coisas, mas sempre com um olho crítico de prontidão, que não me agradam as manadas, os currais.

Porém, há algo que me incomoda particularmente nessa história e que um amigo chamou certeiramente de síndrome da acessibilidade. É preciso que tudo esteja disponível o tempo todo, de preferência no menor espaço físico possível. Vamos colocar o mundo dentro de uma área de poucos centímetros quadrados. Se a internet não funciona, é o caos total. Se em determinado local não conseguimos obter sinal em nosso celular, é o caso de deixar as pessoas esperando, ir até a rua em busca de conexão e ver se há alguma mensagem, se alguém ligou. Até alguns anos atrás, esperar uma semana ou dez dias por uma carta era a coisa mais natural. Aliás, era poético, deixava em nossa alma uma expectativa, um silêncio de suspensão. Agora não, tudo é contado em minutos. Ligaram, tem que retornar. Recebeu uma mensagem, pare tudo o que estiver fazendo e corra para responder, pois deve ter alguém do lado de lá aguardando desesperadamente por sua resposta.

Agimos como se a existência se organizasse e dependesse de uma ínfima fatia de tempo. Um grande ensinamento que colho sempre que estou em minha chácara é aprender a respeitar o ritmo das coisas. Na natureza nada pode ser forçado. Aliás, pode, mas sempre com resultados desastrosos. Tudo flui como deve fluir, fazendo eco à famosa sentença: não apresse o rio. Por pensar assim, devo seguidamente passar a imagem de uma pessoa mal-educada. Sempre que possível retorno logo as ligações perdidas, mas não necessariamente trinta segundos depois. Idem para os e-mails recebidos. Não creio que a ordem universal sofrerá um abalo significativo com isso.

Ter tudo ao mesmo tempo, sempre. É uma divisa de nossa época que acaba deixando em nós um gosto de saudade. Pelo menos em mim. Que alegria esconder-se vez que outra, deixando que apenas suspeitem o que estamos fazendo. Não quero estar conectado dia e noite, ininterruptamente. Morro de pena desses todos que andam por aí, acessados continuamente na rede, sem descanso. Apesar disso, creio que a inteligência não precisa excluir nada do que a tecnologia pode oferecer. O melhor exemplo se encontra na medicina. Não está nos meus desejos secretos ter a barriga aberta a seco e muito menos um dente arrancado com boticão. Viva o laser, a anestesia e toda a parafernália que ajuda a diminuir a dor. Mas, por favor, vamos com menos sede ao pote.

Deveríamos, ao menos uma vez por ano, fazer uma terapia de choque: uma semana de convivência apenas com nós mesmos e com as pessoas que queremos bem, longe de jornais, internet, celulares. Desligar-se, percebendo outras formas de relacionamento. Aprecio as novidades, mas não os excessos. Sempre os achei perigosos.

Quero pertencer à turma dos modernos, mas não pretendo rivalizar com Deus.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

TRAUMA

TRAUMA

Quem nunca teve um trauma na vida ou não passou por situações de conflito tende a se tornar imaturo e com poucas chances de desenvolver um senso mínimo de realidade. Psicologia básica, mas é bom pensar sobre isso na hora de analisar os efeitos que essa ausência de tempestades tem sobre as pessoas. O exemplo mais contundente que posso dar é o de um amigo que conheci na época em que cursava Filosofia. Criatura dada a generosidades incalculáveis, era totalmente incapaz de fazer uma avaliação correta do que estava acontecendo debaixo do seu nariz. Aprontavam horrores com ele e nada. Continuava vendo tudo e todos com a confortável máscara da bondade. Comovente, se você tem vocação para masoquista ou sente prazer em ser ludibriado. Não era o caso. Via-se o quanto sofria, mas não tinha nenhum arsenal interno que pudesse acessar quando precisava de ajuda. Não era uma palavra que raramente usava. Nem os inúmeros psiquiatras que consultou davam conta do caso.

Na medida em que o conheci mais intimamente, descobri que fora protegido desde criança de toda espécie de perigo. E, pior, muito pior, sempre teve um séquito de empregados para fazer tudo por ele. Na verdade, ainda é assim. Nunca precisou solucionar problemas práticos, nem se preocupar com a própria sobrevivência. Uma polpuda mesada do pai sempre lhe garantiu ter alguém por perto para resolver qualquer situação de desconforto ou necessidade. Desde trocar o pneu do carro até comprar uma casa na praia. Faltou trauma, com certeza. Hoje, à parte ser um homem de grande cultura e um amigo de fidelidade canina, parece que vive em outro planeta. E, claro, sempre acaba se ligando a mulheres oportunistas, em termos afetivos e financeiros. E quanto mais decepções sofre, mais é incapaz de avaliar o que está acontecendo. Cegueira total. Temo o dia em que venha a ser vítima de alguma agressão física e acabe encontrando as justificativas mais absurdas para o ato.

Estou fazendo a apologia do sofrimento? Acho que não, mas tenho a convicção de que algumas frustrações são fundamentais para criarmos mecanismos que nos protejam. Se a vida não é para amadores, é bom aprender a usar certas armas, se necessário. Meu desvalido amigo preenche as horas se lamentando, sem ter a menor ideia do que se passa e repetindo às raias da demência o mesmo comportamento. Todos são bons, todos querem o melhor para ele. Parece um Cândido moderno, o famoso personagem de Voltaire que acreditava viver no mais perfeito dos mundos, mesmo quando tudo estava desmoronando.

Uma boa receita continua sendo o choque, a perda da inocência. Não dá para fazer de conta que nosso planeta é habitado por anjinhos cor de rosa. Somos uma raça fascinada pelo poder e que não está muito preocupada em fazer ponderações éticas na hora de conseguir o que deseja. Não, isso aqui não é o inferno, mas não custa aprender algumas técnicas de sobrevivência. Por exemplo, substituir a ingenuidade pela lucidez. Para sofrer menos, lá no final. A história mostra que grandes seres humanos passaram por inúmeras dificuldades ao longo de sua existência. Sobreviveram a tudo, deixando um patrimônio de conhecimento e sabedoria.

Ser privado de algumas coisas é o melhor remédio para chegar com saúde física e mental à idade adulta.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

ALGUÉM FAZ MELHOR

ALGUÉM FAZ MELHOR

Meu vizinho fabrica móveis. Eu não consigo serrar uma tábua. Beatriz pinta quadros magníficos. Eu nunca peguei um pincel na mão. Conheço um garoto de seis anos que é um ás no computador. Eu sei o básico do básico. E quantos escrevem muito melhor do que eu. Faço algumas coisas bem, outras mais ou menos e sobre a maioria não tenho a menor ideia. Mas tem muita gente que esbanja talento por aí. Então, adeus arrogância, adeus pretensão de achar que sem a minha presença o mundo se tornaria um caos. Cada um se vira como pode, mas não custa nada dar uma olhada para o lado e ver o que acontece um pouco além da cerca do nosso gramado.

Um exemplo clássico é quando somos demitidos de um emprego. Nossa vingança pessoal é pensar: tudo bem, eu quero ver como eles vão se virar sem mim... Se esse negócio anda é porque eu faço isso, mais isso e mais aquilo. Uma semana depois você volta ao local de trabalho e leva um susto. Não só as coisas continuam funcionando como, às vezes, até melhor do que antes. Portanto, não nos sintamos como deuses perdidos em meio a uma multidão de ignorantes apenas porque aprendemos alguns truques básicos de sobrevivência.

Até pouco tempo atrás eu pensava que a humildade era um atributo dos fracos. Pessoas normais, pessoas que queriam vencer, tinham que esquecer isso. Mas estou virando a bússola – meu norte agora é outro. O ponto principal me parece ser esse: posso ser muito bom no que faço, mas nada me assegura que as aptidões que escolhi ou consegui desenvolver são superiores às de quem, por exemplo, resolveu se especializar em eletricidade. Ou em engenharia espacial, gastronomia, sei lá. Não daria muito certo se todos ficassem só escrevendo. Existe uma engrenagem complexa que costumamos ignorar, sem a qual estaríamos parados, perdidos, olhando o cortejo passar.

Ao sairmos da torre do nosso castelo particular conseguimos perceber que, mesmo quando algo nos parece imperfeito, quando um trabalho está mal feito, provavelmente foi o máximo que aquela pessoa pôde dar naquele momento. É bom lembrar disso antes de colocar o dedo em riste para apontar os defeitos alheios. Vale para a comida que sua mãe faz, para o último filme que você viu ou aquela crítica da qual discordou. Quando solicitam a nossa opinião, crescemos uns dez centímetros e dizemos: “Veja bem, se fosse comigo...”. Quem nos garante que também não iríamos desapontar alguém? Somos tão propensos a ver somente a nós mesmos que fica difícil compreender em escala diferente da que nos ensinaram.

O melhor dos outros pode provocar em mim o desejo de imitação positiva. É o fiat lux, o “meu Deus, por que é que eu não pensei nisso antes?” Para que tanta severidade? Que importância tem tudo isso diante da morte, só para lembrar o óbvio? Reconhecer o que está acontecendo de bom ao nosso lado é uma maneira de forçar nossa consciência a perceber outros padrões, outras alternativas.

Somos apenas um ponto de referência, não a matriz de onde devem sair todas as cópias.

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

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ONDE É A FESTA?

ONDE É A FESTA?

Um dos temas mais recorrentes dentro do universo da psicologia é a incapacidade de avaliar corretamente o que há de bom em nossa vida. A festa sempre parece estar acontecendo na casa ao lado. Não importa o quão felizes ou serenos estejamos, precisamos espiar o que se passa com o vizinho, os amigos e as pessoas públicas que admiramos. E a constatação será invariavelmente a mesma: eu estaria bem melhor se tivesse um pouco mais de dinheiro, se minha namorada fosse loira, se eu pudesse passar um ano no Exterior. Mas a gente sabe, instintivamente, que conta bancária, cor de cabelo ou a quantidade de vezes que viajamos não têm nada a ver com estar bem consigo mesmo.

Poderíamos dar o nome de inveja a essa estranha doença que nos incapacita para avaliar corretamente o que deve ser considerado como um ganho extraordinário. Mas acho que a questão não é tão simples assim. Somos míopes para perceber o que se sagra no ordinário, como se com os outros tudo acontecesse de forma mais esplendorosa, menos banal. Não conseguimos colher as oferendas que se apresentam disfarçadas de algo comum e que são, no mais, a quase totalidade do que experimentamos cotidianamente. Mas há que se perceber aqui o valor maior daquilo que, sonolentamente, chamamos de rotina. Dentro de uma repetição que quase sempre nos causa tédio, é possível pinçar um sem número de situações que pertencem à ordem da mais pura alegria. A vivência plena do afeto é capaz de gerar um alto padrão de relacionamento. É possível, sim, admirar alguém depois de 30 anos de convivência. Basta deixar alguns espaços para expandir nossa percepção do mundo, introduzindo nesse universo doméstico a presença de outras pessoas. Porque, afinal, ninguém é tão interessante a ponto de suprir o outro em sua totalidade.

Quantas reservas devemos ter para nos sentir financeiramente seguros? Haverá um limite? Não creio, a se levar em conta a eterna insegurança que sentimos. O objetivo pode ser 500, mil, mas facilmente se transformará em milhões. Um rosto e um corpo bonitos nos protegem de dissabores e tristezas? Ajudam, com certeza, dizer que não seria ingenuidade ou despeito. Mas não é um valor em si. Pratique uma matemática simples e você terá a resposta. Passamos mais tempo seduzindo ou conversando com quem está a nosso lado? Sentimos fascínio pelo que não conseguimos ser ou ter, eis uma verdade consumada. Essa fratura na alma acontece toda vez que deixamos de ver que a falta não é necessariamente uma tragédia.

Ver melhor, essa tem sido a grande tarefa que me imponho todas as manhãs, assim que acordo. Para tanto, busco ajuda na arte, nas pessoas com quem convivo, esforçando-me para estar verdadeiramente presente em cada situação. Somado a isso, permanece em mim a esperança de que o tempo pode ser um grande aliado. Vou bebendo de todas as fontes, no desejo incessante de reconhecer a alteridade. Há a dor, o desconforto e a insatisfação. Mas há também, e sobretudo, a possibilidade de se reconstruir a partir do mesmo gesto, da mesma presença amorosa, do contentamento que se esconde nas dobras de cada dia.