segunda-feira, 7 de setembro de 2009

ONDE É A FESTA?

ONDE É A FESTA?

Um dos temas mais recorrentes dentro do universo da psicologia é a incapacidade de avaliar corretamente o que há de bom em nossa vida. A festa sempre parece estar acontecendo na casa ao lado. Não importa o quão felizes ou serenos estejamos, precisamos espiar o que se passa com o vizinho, os amigos e as pessoas públicas que admiramos. E a constatação será invariavelmente a mesma: eu estaria bem melhor se tivesse um pouco mais de dinheiro, se minha namorada fosse loira, se eu pudesse passar um ano no Exterior. Mas a gente sabe, instintivamente, que conta bancária, cor de cabelo ou a quantidade de vezes que viajamos não têm nada a ver com estar bem consigo mesmo.

Poderíamos dar o nome de inveja a essa estranha doença que nos incapacita para avaliar corretamente o que deve ser considerado como um ganho extraordinário. Mas acho que a questão não é tão simples assim. Somos míopes para perceber o que se sagra no ordinário, como se com os outros tudo acontecesse de forma mais esplendorosa, menos banal. Não conseguimos colher as oferendas que se apresentam disfarçadas de algo comum e que são, no mais, a quase totalidade do que experimentamos cotidianamente. Mas há que se perceber aqui o valor maior daquilo que, sonolentamente, chamamos de rotina. Dentro de uma repetição que quase sempre nos causa tédio, é possível pinçar um sem número de situações que pertencem à ordem da mais pura alegria. A vivência plena do afeto é capaz de gerar um alto padrão de relacionamento. É possível, sim, admirar alguém depois de 30 anos de convivência. Basta deixar alguns espaços para expandir nossa percepção do mundo, introduzindo nesse universo doméstico a presença de outras pessoas. Porque, afinal, ninguém é tão interessante a ponto de suprir o outro em sua totalidade.

Quantas reservas devemos ter para nos sentir financeiramente seguros? Haverá um limite? Não creio, a se levar em conta a eterna insegurança que sentimos. O objetivo pode ser 500, mil, mas facilmente se transformará em milhões. Um rosto e um corpo bonitos nos protegem de dissabores e tristezas? Ajudam, com certeza, dizer que não seria ingenuidade ou despeito. Mas não é um valor em si. Pratique uma matemática simples e você terá a resposta. Passamos mais tempo seduzindo ou conversando com quem está a nosso lado? Sentimos fascínio pelo que não conseguimos ser ou ter, eis uma verdade consumada. Essa fratura na alma acontece toda vez que deixamos de ver que a falta não é necessariamente uma tragédia.

Ver melhor, essa tem sido a grande tarefa que me imponho todas as manhãs, assim que acordo. Para tanto, busco ajuda na arte, nas pessoas com quem convivo, esforçando-me para estar verdadeiramente presente em cada situação. Somado a isso, permanece em mim a esperança de que o tempo pode ser um grande aliado. Vou bebendo de todas as fontes, no desejo incessante de reconhecer a alteridade. Há a dor, o desconforto e a insatisfação. Mas há também, e sobretudo, a possibilidade de se reconstruir a partir do mesmo gesto, da mesma presença amorosa, do contentamento que se esconde nas dobras de cada dia.

sexta-feira, 31 de julho de 2009

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Amizade

Amizade

Muitas pessoas irão entrar e sair da sua vida
mas somente verdadeiros amigos deixarão pegadas no seu
coração.

Para lidar consigo mesmo, use a cabeça,
para lidar como os outros, use o coração,
raiva é a única palavra de perigo.

Se alguém te traiu uma vez, a culpa é dele;
Se alguém te trai duas vezes, a culpa é sua.

Quem perde dinheiro, perde muito,
Quem perde um amigo, perde mais.
Quem perde a fé, perde tudo.

Jovens bonitos são acidentes da natureza:
Velhos bonitos são obras de arte.

Aprenda também com o erro dos outros,
você não vive tempo suficiente para cometer
todos os erros.

Amigos você e eu...
Você trouxe outro amigo...
Agora somos três...
Nós começamos um grupo...

Nosso círculo de amigos...
E como um círculo,
não tem começo nem fim...

Ontem é história:
Amanhã é mistério,
Hoje uma dádiva,

É por isso que é chamado presente...
Te desejo um final de semana abençoado

quarta-feira, 27 de maio de 2009

Só pode ser amor

Só pode ser amor

Não sei onde estava e do que me possuíra quando escrevi a coluna abaixo.

É tão inacreditável, que chego a pensar que não fui eu que a escrevi. Como posso ter chegado a tão grande altura? Ei-la, deixem eu me exibir:

Eu já devia ter pressentido que era amor quando curtia magnífico prazer somente em olhá-la de longe. Eu já devia saber que era amor quando vibrava com seus êxitos e me entristecia com seus embaraços. Eu tinha que ter percebido que era amor quando me sentia invulnerável à solidão se me aproximasse dela a um raio de 20 metros. Só podia ser amor aquele estremecimento que me percorria todo o corpo quando ouvia sua voz se dirigindo para os outros. E quando, num ambiente repleto de pessoas, eu passava a não distinguir as feições de todos, vendo-os apenas como vultos expletivos, realçando-se como esplendorosamente icônica sua figura arrebatadora, já naquele tempo eu não devia ter duvidado de que era amor.

***

Já era fortemente suspeito que durante as minhas tristezas elas desaparecessem como por um milagre se eu usasse como antídoto a simples lembrança do seu meigo sorriso. E que, quando diante da visão dela por apenas um segundo, durante o resto do dia os meus passos e gestos se impregnassem de alegre coragem de viver. Ou como naquele dia em que topei abruptamente com ela no estacionamento e fiquei tão ruborizado, que parecia estar focado pelo facho de luz emanado da palavra de um profeta.

***

Não podia ser outra coisa aquela constante palpitação, aquela ruidosa esperança, aquele contentamento ansioso nas manhãs e o meu pulsante e taquicárdico coração vibrando ante a obsequiosa visão de sua esplendente silhueta vespertina.

Só podia ser amor a minha alma assim tão cheia de cuidados para preservar o meu segredo, o medo de que minha palavra ou o meu escrito, num escorregão, violassem o esplêndido sigilo do sentimento abrasador que me dominava.

***

Só podia ser amor que, depois de ela ter surgido luminosa na escarpa da caverna da minha solidão, eu deixasse de me entregar ao exercício fastidioso da comparação. Ninguém ou nada mais se equivalia ou se assemelhava a ela, mãe, irmã, parceira, namorada, companheira. Cheguei loucamente a pensar que a única cidadela capaz de manter íntegro aquele meu frágil amor inconfessável era mantê-lo em segredo, imune ao conhecimento dos outros e até mesmo incrivelmente dela.

Dar a conhecê-lo arrastaria ao tremendo risco de fazê-lo soçobrar ali adiante, presa fácil do fastio da convivência ou de uma resposta contundentemente adversa.

***

Ah, silencioso amor cheio de delícias e ilusões. Precavido amor que não se declara com medo da quebra do cristal. Ah, amor que quanto mais distante mais crescente, quanto mais errante mais certeiro, quanto mais secreto mais ditoso, quanto mais expectante mais real, quanto menos empírico mais ideal, quanto menos dela mais meu, quanto mais irrealizado mais duradouro, quanto mais prometido mais honrado. Quanto menos compartilhado, mais definitivo. Amor por eleição, tão alto, tão profundo, tão desinteressado, que não importa sequer o que faça dele e do seu mandato a sua eleita.

Nem que o malbarate por não pressenti-lo.

Paulo santana-Zero hora

terça-feira, 4 de novembro de 2008

Inicio do curso de mergulho
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Um pé lá, outro cá

Um pé lá, outro cá

Tenho observado um fato interessante, que envolve algumas pessoas com quem convivo. Sabe aquela criatura devotadíssima, que esfola os joelhos nos bancos das igrejas ou de centros religiosos, quase todos os dias? Aquela que, de oração em oração, acredita estar comprando o seu quinhão de céu e se apresentará com saldo positivo diante de Deus? Pois é justamente essa que muitas vezes se esquece de ser correta, justa, solidária com os que estão próximos. É um fenômeno curioso. Não sei como funcionam suas mentes, mas a verdade é que estar com um pé do lado de lá parece desobrigá-las do cumprimento de algumas regras que definem a honestidade e a delicadeza que deve revestir as relações humanas. É instigante constatar que um leve afastamento do mundo material costuma gerar certo descuido nos comportamentos do dia a dia.

Conheci uma senhora que estava sempre pronta a reafirmar a importância de sermos bons e justos, de nos conscientizarmos, desde cedo, da lei do carma e coisa e tal. Era uma espírita convicta. Mas poderia ser católica, umbandista, evangélica, tanto faz. Ela vivia mais no além do que entre os seus. Tudo tinha uma significação que escapava a nós, mortais comuns, que ainda não haviam despertado para a revelação, não haviam se conectado com o divino. Pois seu discurso, sempre inflamado e repleto de citações bíblicas e kardecistas, não costumava coincidir com as atitudes que ela tinha com seus colegas e subordinados. Dava ordens aos gritos, era grosseira, tinha um aspecto altivo. Olhava para todos com certo desprezo piedoso, por assim dizer, sonhando com o dia em que poderia enfim viver entre criaturas iguais a ela, elevadas, que fossem capazes de compreender sua evolução. A pobre, já falecida, talvez tenha levado um susto ao descobrir (ou não) que a sua verdade era apenas... a sua verdade.

Ter fé, praticar uma religião com coerência e disciplina, certamente pacifica o nosso espírito e nos torna seres melhores. Mas o que eu tenho visto, com muita assiduidade, é um distanciamento entre o discurso e a prática. Quanto mais se clama usando o nome de Deus, mais se costuma esquecer que ao nosso lado existem pessoas de carne e osso, materializadas, e que é preciso conviver com elas, respeitando suas crenças e a maneira com que acolhem o mundo. Uma atitude muito comum entre quem vive na área rural (onde eu moro) é acreditar que apenas o ato de ir à missa, confessar-se e comungar é suficiente para conseguir uma espécie de perdão amplo e geral para os pecados cometidos. Eu posso bater, maltratar, xingar. Posso ser cruel com minha esposa, com meus filhos e animais domésticos. Logo ali adiante, ao custo mínimo de um arrependimento provisório e de uma hóstia abençoada, serei isentado de qualquer multa, de qualquer pendência com o além.

Não pratico religião alguma. Leio a Bíblia com assiduidade, medito e gosto muito dos princípios contidos no budismo e no espiritismo. Mas não freqüento templos. Não quero me filiar a nada. Já acho bem difícil cumprir todas as demandas da nossa realidade física. Não costumo me envolver em rituais, embora, no sentido estético, os considere valiosos. E, sinceramente, ouso crer que o cuidado que tenho com quem me é próximo não depende da quantidade de preces que dirijo aos céus. Procuro ouvir os outros com atenção, cuido de familiares doentes que dependem de mim. Justiça e atitudes éticas não podem estar subordinadas às nossas crenças. A menos que o nome que queiramos dar a isso seja medo. Porque na grande maioria das vezes só refreamos nossos piores instintos porque tememos algum castigo lá de cima. Enfim, que também para isso sirva a fé: para impedir que o predador que mora dentro de nós ocupe um espaço ainda maior do que se vê por aí.

Como os ritos vêm carregados de emoção, não se pode apelar para a racionalidade em casos como o descrito. Simplesmente, se crê porque se crê. E há, certamente, uma grande beleza nesses comportamentos que resvalam na inconsciência, na entrega fortuita, distanciados da lógica. Mas, há que se prestar atenção para não deixar de lado o mais essencial nessa vida: o respeito à diferença, a generosidade em acolher o outro pacientemente, sem impor-lhe as nossas próprias viseiras. Que queiramos uma certa garantia, já colocando um pé do lado de lá, é opção que cabe a cada um fazer. Ruim é quando, como fazia minha amiga, espalhamos arruda e aspergimos água benta pela casa, esquecendo de cuidar dos atos que afetam os que convivem conosco. O que não faz sentido é reduzir tudo a um discurso para conseguir poder, fama e dinheiro. Tudo é pop. Padres e pastores costumam se confundir com artistas de novela nesse mundo efêmero das celebridades. Todos rezam para angariar admiradores, apenas mudam as armas usadas para seduzir. Ainda acredito que a melhor maneira de servir a Deus é espalhando boas ações e silêncio, muito silêncio. E estando sempre atento para o que diz o Salmo 49: "O homem não pode comprar seu resgate,/ nem pagar a Deus seu preço;/ o resgate de sua vida é tão caro/ que seria sempre insuficiente/ para o homem sobreviver,/ sem nunca ver a cova."

segunda-feira, 14 de abril de 2008

Sofrer ou ser feliz?

Sofrer ou ser feliz?

Raramente, na história da raça humana, a felicidade alheia foi bem cotada. Os que sofrem parecem ter primazia em nossa admiração. A arte está recheada de exemplos que ilustram a teoria de que a dor sempre fornece enredos mais interessantes. Os muito alegres que nos perdoem, mas uma boa dose de tristeza parece ser fundamental. Vivemos sob esse axioma sentindo um certo orgulho, numa espécie de processo expiatório, como salvo-conduto para circular entre nossos pares. As religiões distribuem, neste vale de lágrimas, cheques em branco para serem descontados num futuro indeterminado. Pena-se aqui, mas lá, mais à frente, cada um de nós tem reservados os indescritíveis gozos que nos são negados enquanto habitantes deste planeta, onde prepondera o infortúnio. E assim vão sendo formadas nossas crenças sobre o mundo, as coisas e nós mesmos. Mas será que os sofredores são realmente os mais qualificados para doutorar-se no quesito sabedoria?

Estou relendo, depois de quase 20 anos, o belo romance A Imortalidade, do escritor tcheco Milan Kundera. A tantas páginas, um personagem sentencia: "O sofrimento é a Grande Escola do egocentrismo". Verdade, nunca somos tão egoístas como quando estamos sofrendo, seja física ou psiquicamente. Por certo há os iluminados que transformam esta experiência numa espécie de ascese espiritual, num encurtamento do caminho que pode nos alçar até Deus (ou seja lá que nome queiramos lhe dar). Mas, perdoem minha incredulidade, a esmagadora maioria se apequena, enquanto o pronome "Eu" ganha proporções abissais. Nada é mais importante do que a dor que estão sentindo naquele momento. Existe quase que uma reinvenção da própria linguagem, que consiste em priorizar o singular e preterir o outro, o diferente.

Lembro que em minha adolescência eu nutria uma espécie de prazer sensual em me sentir deprimido. Por um triz, não saía por aí gritando para os meus amigos: "Olhem pra mim, vejam como eu estou infeliz!". Muito provavelmente para chamar a atenção, para ser o centro dos olhares e dos sentimentos alheios. Era a fórmula que me parecia mais convincente. Foi necessária a passagem de muitos anos para me dar conta de que teria sido razoavelmente simples reverter esse processo de melancolia, uma vez que deprimido, clinicamente falando, eu nunca fui. Quando descobri que dava bem menos trabalho ser feliz, foi um Deus nos acuda. Corri em busca de todo tempo perdido e hoje minha maior vingança, quando um problema de proporções consideráveis me assola, é me debruçar atentamente sobre ele e tentar resolvê-lo o mais rapidamente possível. Não costumo acariciar a dor.

Embora este texto esteja tomando uma direção confessional, a real intenção é refletir sobre uma espécie de distorção que acontece em nossa cabeça quando a questão é a "escolha" entre a felicidade e o sofrimento. Estou expondo simplistamente a situação, pois minhas noções psicanalíticas são as de um mero amador. Talvez a escolha desse assunto tenha sido a reação de uma amiga alguns dias atrás. Quem me conhece o suficiente (existe o suficiente?) sabe que sou bem-humorado, meio palhaço, enfim, que acho a vida uma experiência grandiosa e que não vale a pena desperdiçá-la com lamúrias. Pois essa minha amiga, numa conversa corriqueira com uma terceira pessoa presente, perguntou-lhe, à queima-roupa: "Mas o Gil é sempre assim, tão alegre, de bem com tudo?". É muito agradável poder responder que sim, que via de regra sou uma pessoa feliz. Que, a despeito de tantos problemas que todos temos que enfrentar, da presença de enfermidades, do excesso de trabalho que às vezes nos esgota, de frustrações diversas, da percepção da velhice para a qual inexoravelmente todos caminhamos, não posso reclamar da vida. Tenho o que me parece essencial para estar bem: o afeto sincero das pessoas com quem convivo, muitos, muitos amigos, uma família que me acolhe e a liberdade de me expressar artística, profissional e amorosamente da maneira que me parece a ideal. Não passei por grandes privações, tenho acesso, material e cultural, ao que considero relevante. Não conheci perdas que não pudesse superar. Olho para a frente e sempre me imagino multiplicando tudo isso. O que virá depois eu não sei e também não me interessa muito.

A palavra religião tem um único sentido para mim: tentar ser bom para si e para os outros. Dificilmente atravessarei o futuro sem decepções ou sem o conhecimento da dor. O balanço final será feito mais adiante, espero que bem mais adiante. Por hora, fundamento minha convicção de que o sofrimento não costuma melhorar muito as pessoas. Em diversos casos ele as torna mais raivosas. "Por que comigo?", parecem perguntar o tempo todo. Tem o seu cadinho de perigo conviver com quem se sente vítima. Parece bem melhor nos aproximarmos daqueles que denotam certa vocação para a felicidade. Na brevidade de tudo, resta o consolo de descobrir que a possibilidade de administrar a própria consciência não pode ser desperdiçada. Talvez a vida seja um jogo, uma partida que poderá ser disputada uma única vez. Nem sempre é possível escolher as cartas. Muitas vezes gostaríamos de trocá-las. Mas o melhor mesmo é seguir jogando como se tivéssemos muitos curingas na mão.